Desde que comecei a receber feedbacks sobre o livro “Tenho Monstros na Barriga”, percebi que tinha algo muito especial no livro que eu não tinha planejado. Além de uma ferramenta para a alfabetização emocional de crianças (e adultos!), o livro criava um espaço seguro para que as crianças pudessem falar sobre seus sentimentos. Como o livro é interativo, com perguntas e espaços para criação dos seus próprios monstros, existia um incentivo para que os adultos também contassem para as crianças sobre quando os monstros (sentimentos) apareciam na barriga deles.

E esse espaço de troca e conexão entre adultos e crianças dentro das famílias, espalhou-se para consultórios de psicólogos que começaram a utilizar o livro com seus pacientes e também para salas de aula pelo Brasil, com professores utilizando o livro para criar esse ambiente seguro para que as crianças pudessem aprender. Afinal, ninguém aprende com medo.

Os relatos e depoimentos me mostraram que, mais do que falar dos sentimentos, o livro cria um ambiente psicologicamente seguro para que as pessoas possam ser vulneráveis, dividir seus monstros, de forma lúdica e interativa. A segurança psicológica é a base para o processo de transformação de crianças, pais e famílias, qualquer que seja o ambiente em que estão.

Não existe transformação digital sem transformação humana.

Nas empresas, em processos de transformação digital, é muito comum o foco ser nas tecnologias, sem se levar em conta a transformação humana como pilar fundamental para o sucesso desses projetos. Não existe transformação digital sem transformação humana. As pessoas são exponenciais e elas que são os motores da inovação e transformação nas empresas. 

Também tenho visto empresas que criam um novo cargo, Vice Presidente de Diversidade e Inclusão, com o objetivo de comunicar essa pauta prioritária na agenda da empresa. De fato, é a forma mais fácil, porém, sem uma transformação de todas as pessoas, de um espaço seguro de convite à autenticidade e, portanto, à diversidade, a criação de um novo cargo não leva a empresa muito longe. Uma pessoa sozinha não consegue mudar todas as pessoas da empresa.

A empresa é um conjunto de “outros” que, para ter um processo de inovação bem-sucedido, precisa se transformar em “nós”.

Mas afinal, o que é segurança psicológica? Amy Edmondson, autora do livro “The Fearless Organization: Creating Psychological Safety in the Workplace for Learning, Innovation, and Growth”, Amy define segurança psicológica como a “crença de que o ambiente de trabalho é seguro para haver risco interpessoal. (…) O sentimento de poder falar abertamente sobre ideias relevantes, questões e preocupações. (…) Está presente quando os colegas confiam e respeitam uns aos outros. E se sentem aptos – e até obrigados – a serem francos.” 

No alt text provided for this image

Esse é um conceito relativamente novo, que vem ganhando atenção na medida em que as empresas percebem tentativas frustradas de implementar tecnologias ou processos disruptivos sem passar pelas pessoas ou pela cultura organizacional. Segurança psicológica é sobre criar ambientes e cultura em que as pessoas se sintam seguras para assumir riscos interpessoais, de forma que elas tenham voz, compartilhem ideias e opiniões, dúvidas, feedbacks e tomem riscos sem medo de ser julgado ou punido. A parte mais difícil da segurança psicológica é que estamos falando de relações e é impossível controlar o outro, a percepção do outro e, por consequência, o julgamento do outro.

E a empresa é um conjunto de “outros” que, para ter um processo de inovação bem-sucedido, precisa se transformar em “nós”. E isso só acontece se existe segurança psicológica.